David era um aluno brilhante da Universidade de Arte Científica de Mainflower, situada no sudeste norte-americano. A UAC Mainflower era uma universidade criada no final do século XX, por uma iniciativa do governo norte-americano de preparar capital humano com refinada capacidade técnica e de liderança. Os profissionais e líderes formados nessa universidade eram preparados não só para abordar a problemática mundial, através das abstrações mais sofisticadas e baseadas no conhecimento do mundo global, econômica e culturalmente, mas também na fornecer competências para se fazerem executáveis os planos políticos-econômicos em todos os ramos da sociedade. Exemplificando, diante de um paradigma neoliberal, há de se fazer um planejamento do perfil social de uma nação e diante de um modelo econômico, faria se operar certos dogmas de forma a seduzir não somente as classes mais baixas, mas também todos aqueles que fariam parte dos extratos dominantes de uma nação. Os estudantes eram selecionados entre as melhores universidades do mundo. Estes eram mapeados e com eles eram feitos testes que se aplicavam desde o primeiro ano até quando se chegasse à metade do tempo necessário ao término da faculdade onde estivessem matriculados.
Com uma proposta simples ao oferecer o curso, e todas as demais condições materiais, para os alunos das melhores faculdades do mundo, dizia-se que os alunos formados na Mainflower seriam detentores do conhecimento mais sofisticado e pragmático que pudesse se obter de todos os disponíveis nas universidades do mundo. Formavam-se alunos no tempo de sete anos, onde eles sairiam com capacitação intelectual e titulação doutoral para atuar em qualquer universidade do mundo. Nesta escola, também havia um curso de doutoramento, mas que o próprio não era de acesso para todos que lá estudavam. O conceito de inteligência era um tanto distinto, mesclando o emocional e moral à tradicional capacidade racional que cada estudante residente daquela universidade possuía. O lado emocional e moral era o elemento marcante e o que diferenciava os estudantes, independente da diferença entre os coeficientes de inteligência racional dos alunos.
Embora todos os alunos que compunham este grupo possuíssem fundamentalmente as mesmas características em comum, alguns traços da personalidade e do perfil psíquico se manifestavam de formas muito distintas e peculiares, de forma que mesmo os pesquisadores, de reconhecimento e premiação única em todo mundo, não conseguiam dar uma forma, uma definição comum a essas manifestações, nem tampouco sintetizar essas observações em um conhecimento científico coeso e inteligível aos outros estudiosos. Era algo similar à origem da Física Quântica, quando muitos ainda viam o mundo da ótica newtoniana. Havia algo diverso nesses alunos que não conseguiam explicar. Probabilisticamente era um em cada 20 milhões de nascidos, segundo a atualidade. Os estudos de genética e neurociência tentavam obter padrões, e assim desenvolver testes, para mapear o nascimento dessas novas pessoas.
Entre esses alunos estava David. Ele se destacava em Mainflower. Era um dos alunos que a direção agraciava com ares de superioridade frente aos seus colegas. Era emocionalmente equilibrado, mas com uma característica psíquica que uma pequena minoria, reduzidíssima, possuía. David estranhamente se destacava dentre os alunos como terminando o que o professor começava a se referir como ponto de estudo, sem que nada soubesse sobre o assunto. Isso foi observado, segundo um professor de Metafísica Quântico-Cosmológica, que explorava futuristicamente a condição da população humana no caminhar normal do processo evolutivo, passando de sua condição atual até sua forma composicional em séculos à frente de nosso tempo. Era um novo paradigma filosófico-histórico onde após se reconstruir o passado se tentava construir o futuro numa forma de entendê-lo em sua formação natural, por todas as decisões que se tomassem desordenadamente em todas as regiões do mundo. Os pesquisadores conseguiam construir modelos do futuro somente com a ajuda dos alunos, que pulverizam o ar de idéias ou pensamentos em relação ao nosso universo.
David conseguia seguir a razão acerca do pensamento dos professores. O professor de Metafísica Quântico-Cosmológica observou em uma de suas aulas que David o acompanhava exatamente no fio do que dizia, expressando suas idéias exatamente como pensara o professor. Isso fez com que o professor tivesse em sua mente a forma precisa de como David responderia. Suas ações eram uma forma de resposta própria e de difícil entendimento para quem o observava. O professor passou a agir proferindo teorias totalmente irracionais, onde todos os outros alunos se perdiam, com exceção de David, que o seguia intrinsecamente ao calcanhar dos pensamentos, como se tivesse mentalmente todo o arranjo presente que determinava o futuro. Os alunos ficavam espantados com o que o professor dizia, pensando que era mais um tipo de teste onde não sabiam o que responder. Os alunos tinham plena confiança nos professores, a ponto de não tomar como nada de irracional que eles diziam, já que o circuito das aulas era fechado e discutido exaustivamente pelos melhores acadêmicos que se podiam existir nesse mundo. David prestava atenção rigorosamente no que dizia o professor, inteirando-se perfeitamente com o que estaria a se dizer adiante. Não foi somente uma vez que o fizera. Foram várias vezes, de forma que isso estimulou os professores em todas as aulas, nos corredores, no pátio, abordassem David com perguntas de todas as naturezas, no intuito de ouvir as abstrações construídas pelo rapaz sobre situações em que eram logicamente arquitetadas anteriormente, e discutidas exaustivamente até que se desse uma estrutura possível, mas de linguagem lógica inacessível para a maioria dos alunos. Foi assim que descobriram que David tinha a capacidade de se ligar aos sentimentos incorporados nos pensamentos concretizados num texto ou mensagem expressa de qualquer forma.
Os professores começaram a argüir em sala os alunos sobre pontos que estavam ligados as suas pesquisas. Era geral o estado de exclamação com que David compreendia a forma como falavam sobre suas pesquisas. Pontos históricos reconstruídos. A vida de Jesus, os crimes do Império Romano, a filosofia dos grandes sábios gregos: Platão, Aristóteles, Sócrates, Tales de Mileto, Anaximandro de Mileto, Xenófanes de Colofão, Parmênides de Eléia, etc. Uma introdução prévia, a exposição de um raciocínio, uma pergunta aos alunos e após alguns minutos de olhos fechados, David os abria e logo começava a destrinchar o raciocínio mostrando como era o fato por dentro. Isso devia acontecer em algumas ocasiões no mundo, porém os professores nessas ocasiões não dispunham da sensibilidade e conhecimento que tinham os professores de Mainflower para identificar tal habilidade e buscar desenvolvê-la. Até porque seria impossível, sem o devido preparo, averiguar com que veracidade se expunha um aluno sobre um determinado tema usando este estilo.
Era incrível até para os professores mais experientes ver com que naturalidade ele se misturava com a mensagem, extraindo a essência e observações de que somente após anos de estudo tinham podido formar a idéia. Diziam em suas reuniões: -- ele não cria nada, somente interpreta, organiza e coloca seu entendimento. Não interfere, somente coloca o que entende, às vezes sem conhecimento prévio do que se trata. E assim se passaram cerca de quatro anos após sua entrada na Universidade de Mainflower até que os professores tivessem certeza das habilidades de David. Só não sabiam como explicá-la. E, dessa forma, o rapaz passou a ser como mais um ponto que demanda descobertas para se ter compreensão de fatos. Assim como foi indicado para agregar o corpo da Universidade, que agora se preocupava com a reestruturação de seus profissionais de pesquisa.
Passado o tempo, aquilo que era normal para o rapaz e para o corpo docente não o era tanto para seus colegas. Eles observavam aquilo e alguns que trabalhavam com professores sabiam onde se encontravam as barreiras das pesquisas de seus mestres, assim sabiam que alguns professores estavam utilizando as abstrações de David para darem limites mais à frente dos pontos onde estavam. Isso de início causou uma certa admiração, e curiosidade, por David da parte de seus colegas. Eles observavam o que o rapaz fazia. Alguns ficavam em certo estado de mania e tentavam segui-lo a fim de descobrir algo, o pulo do gato que, supunham, encontrariam em algum livro que ele tivesse descoberto na colossal biblioteca da Universidade. Que encontrariam a resposta em algum procedimento que o rapaz realizava a fim de conseguir se sintonizar com a freqüência que os professores expressavam em certas aulas. Não encontravam nada nos livros que o rapaz lia na biblioteca. Alguns já os tinham lido, outros os liam e assim aumentavam mais ainda seus conhecimentos. O interesse, porém, pelas atitudes do rapaz por parte de seus colegas começava, a media que não encontravam indícios de que ele recolhia informações na biblioteca ou que fazia algum exercício transcendental para atingir algum estado mental que o arrebatasse até as fronteiras do conhecimento que os professores tentavam empurrar pelas suas pesquisas, foi se distorcendo com o passar do tempo e dos fatos. Até uma câmera foi colocada no quarto de David por um colega que se aproximara dele mais por motivos de extrair a causa de suas interpretações condizentes com a realidade das pesquisas na universidade, e assim o pudessem observá-lo em todos os detalhes. Todos o faziam, de alguma forma, separadamente. Não tinham coragem de perguntar uns aos outros o que tinha o rapaz a mais que o tornava diferente e explicitamente mais favorecido pelos professores, que embora não o dissessem diretamente, o demonstravam com perguntas que quase eram diretamente proferidas a David. Esse sentimento de admiração, individualmente existente em seus colegas pela capacidade do rapaz era um paradoxo, ao tempo que existiam alunos na sala que eram tão bons quanto ele, e que até melhores em algumas disciplinas do curso. Esse sentimento de admiração e o paradoxo existentes entre os que melhor se mantinham, em termos de rendimento acadêmico parcial, em relação a David, mesclados, após quase quatro anos de se iniciar o fato, causou certo incômodo aos seus colegas de forma que não encontrando a fórmula do rapaz, desenvolveu-se um instinto de repúdio, que os deslocavam do objetivo institucional de um convívio saudável entre todos os integrantes de Mainflower. A corrosão definitiva e a fratura, iniciou-se numa partida de futebol, onde o rapaz que sempre era disputado para integrar um dos times viu-se restrito a observar quando um atraso de alguns minutos ao início do entretenimento o tirou em definitivo do divertimento do dia. Não o quiseram escolher, e simplesmente não o deixaram escolher, quando, chegando sua vez de poder jogar, todos se retiraram com o argumento de que tinham tarefas a fazer para o dia seguinte. Todos haviam entendido, porém, sem nada combinarem. Apenas entenderam o fato de que a existência do diferencial do rapaz os incomodava paulatinamente durante todo esse tempo como algo crônico que se instalou em suas mentes desde o primeiro dia em que numa aula de Metafísica Quântico-Cosmológica um professor observou que o rapaz tão atento ao que ele dizia, professou o que iria exatamente falar quanto à resposta que se esperava como correta. Essa admiração causou um mal-estar entre os alunos componentes da turma, aumentando a cada aula e colocando a situação em pleno mal estar geral, com o tempo.
Em uma manhã, como o espírito lhe ditasse uma letra bem moldada, algo que realmente não lhe era comum, deu sentido a algumas palavras em um papel. Antes, porém, um pensamento estava ecoando em seu inconsciente e causando o efeito inebriante de quem não consegue perceber o mal estar que lhe corre a alma e reflete em sua atmosfera particular. A pressão aumenta proporcionalmente ao ponto desesperador de uma forma agonizante de sensação de existência terrena. Como um cavaleiro que saca sua espada frente ao inimigo que ameaça seu reino, sacou de seus pensamentos para com uma lança pungente derramar no papel a dor e o sangue de seus pensamentos. O que é isso? De tantos anos de equilíbrio e bem vividos, agora essa sensação se apossa como um câncer algoz que definha minhas entranhas, que me faz fraco do corpo até a alma e me suga as únicas manchas de equilíbrio que me restam. Como se dá isso? Que forma tenho eu de dissipá-la, de bani-la para o reino tortuoso que lhe cabe de moradia? Onde tenho que me refugiar, dentro de mim, para que se quisera essa dor nunca me ache, com quaisquer cães caçadores saia a minha procura?
Se utilizando de uma caneta mais uma folha de papel, jorrou sua confusa sensação sobre a superfície de celulose:
Não há como escapar.
Às vezes quando mais preciso de mim
Ela chega.
Ele ou ela, não faz diferença.
A diferença real é que se apossa,
Como diria... assim.
O meu retrato,
Reflexo no espelho,
Não desconheço mais.
De tantas vezes ocorrido,
Esse brado oprimido
Se apossa de mim e
O que quer faz.
Chega! não luto.
A espera de mim
E esse luto
Sem razão de ser
Me fere por dentro
Procuro a chaga, não acho
Procuro razão, não mais me importa qual
Não. É o que digo sobre se achei.
O tempo passa
E as tarefas diárias ficam.
Ele passa rápido
E o preencho de nada,
Porque é nada o que me satisfaz.
Não vejo amigos,
Parentes ou quem quer que seja.
O dia de sol é só um reflexo
Do brilho, o qual por castigo,
Não sei de onde,
Perdeu-se, de mim, para sempre.
É o que sinto,
Seu real sentido
Nesse vácuo infinito
Crescente no meu eu.
Foram-me todas as idéias,
E o que restou delas
Não passa de medo,
Não passa de jeito,
De um modo, assim...
Especialmente sofrido de existir.
A existência, já que
Toquei nessa falência,
É só uma forma desprezível
De continuar compondo
A grande ópera do silêncio.
E o orgulho, ah...
Esse campeão mudo
De todas minhas batalhas internas.
Seduz-me pela indolente presença
De um suposto poder,
Existente,
E eu de certo crente,
Na eterna capacidade de reter
Alguma qualidade qualquer
Que não só me equilibre,
Mas me diferencie
Do que realmente sou,
Ou não sou.
Não. Em poucas vezes
Acordo com aquela leve presença
De alguma esperança terrena
De que um dia será a vida... melhor.
Basta ! no meu caminho cascalhos
São gigantescas pedras.
Amigos são falso indício de humanidade.
Carinho é mais um tipo idealizado.
Futuro, talvez as marcas expressas
Nos meus olhos te respondam melhor.
Amor, quem sabe um dia ainda por mim eu terei.
A vida, não sei.
A morte, algum dia.
Ausência, bem próxima.
Presença, em algum lugar.
Não sei onde,
Não sei quando,
Vou existir.
Após realizar sua composição, experimentou uma sensação certo alívio do lúgubre sentimento que o rodeava desde que seus amigos começaram a tratá-lo daquela forma. Não havia sentido, se quer aparente, para ele, já que, detentor de tal habilidade inteligível, achava natural sua forma de agir frente às indagações dos professores. Pensou sobre tudo que ocorrera. E o que mais lhe incomodava eram os olhares que o cercavam como de se evitar que o deixassem se inserir no meio social da Universidade. Embora admirado pela massa acadêmica dos doutos que compunham o corpo docente da Universidade, era desprezado pelos colegas, e não possuía a malícia na sua porção necessária para se arrumar um motivo que não fosse se culpar por algo que procurava como explicação para todo aquele misterioso mal-estar que o circundava.
Como uma escola de pessoas especiais, era normal ter algum aluno que expressasse desinteresses momentâneos pelas aulas em certos períodos. Estando certos os professores de alguma fase que o deprimia, mas que logo, por inquérito mental de todos os assuntos que tinha se mostrado familiarizado a desenvolver em plena aula, se restabeleceria e, pelo amadurecimento do estranho período de incubação, voltaria normalmente a participar ativamente das aulas. David era calmo, e vivia dentro das bibliotecas ou lendo os livros que tomava emprestado. A sua vida social não mudou tanto, de certa forma, mas aquele jeito estranho que passava a perceber as pessoas a sua volta o fazia sofrer em cada momento que alguma coisa externa o botava em contato com as lembranças de algum mau sentimento que antes o tomara. E foi através de uma forma de externar seus sentimentos na escrita que encontrou o alívio, pelo menos por algum tempo, para a singular dor que lhe tomava o interior.
Chegado o final do ano letivo. O final das atividades se fizera conforme todos dos períodos. David depois de passar aquele período adverso, parecia um pouco mais animado. Voltara a se comunicar cuidadosamente com seus colegas. Não teve mais aqueles acessos de vidência científica, onde unindo seus conhecimentos adquiridos pela forma rato-de-biblioteca de se portar, fizera brilhantes abordagens que iluminaram a forma de pensar dos professores frente a suas pesquisas. O que quer que explique aquilo, não havia exemplo igual que pudesse compará-lo para se iniciar alguma teoria sobre o brilhantismo do qual tinha acesso por vezes o rapaz. Sequer podiam externar seu espanto, pois, podia inibir David, como, aí sim, ocorrido algumas vezes com alguns brilhantes garotos.
Vieram as férias, e grande parte dos alunos se deslocou para veranear em suas casas. David todos os anos esperava ansioso por esse momento e voltar ao seu lar. Porém, passado os primeiros dias de férias, e via-se o rapaz a destroçar os livros que pela frente encontrava na biblioteca. Parecia buscar e desenvolver um conhecimento colossal. E passados mais alguns dias e se via David caminhar lesmicamente pelo campus. Alguns professores estranharam. Outros acharam que era próprio de algo que há pouco tempo ele tinha desenvolvido e que por isso tinha de ser observado, mas que não necessitava de espanto, pois muitos dos alunos que antes iam para suas casa no verão ficavam a metade das férias no campus, passando as outras semanas em casa.
Numa manhã, foi fatigável a sensação que lhe concernia, o vácuo que fazia a sua existência era insípido e suavemente auto caluneante. A leve espuma que amanhecera sobre sua língua fazia colá-la no céu-da-boca. Não era uma dor aguda que o fazia se sentir desconfortável. Aquele sabor que sentira nos últimos tempos era inevitavelmente torturante. Se levantar para ir a qualquer lugar para fazer qualquer coisa era algo doloroso, e por mais que falasse para si sobre como deveria agir, não o conseguia se levantar e realizar. Permaneceu assim por horas. A sede já o incomodava, mas não tanto quanto aquela sensação que o fazia se iludir de que tudo aquilo era mentira, que ele criara na sua imaginação. Um sonho, um pesadelo, para que nunca se esquecesse de apertar a descarga quando fosse ao banheiro. Um castigo.
E foi assim o dia inteiro. Pensar era torturante. Estar acordado o fazia fechar os olhos e tentar não pensar em nada. Não funcionava. E se passou assim o dia. Parecia ter estabilizado nesse patamar suas sensações. À noite foi pior. A solidão o cortava em mil pedaços e queimava suas carnes. Cada pedaço seu tinha seu desconforto físico respectivo. Com seus olhos fechados, de tanto tempo fechados, dormiu.
Acordou um pouco mais disposto, no dia seguinte. Correu ao banheiro e logo lavou o rosto. Escovou os dentes, que não o fizera desde o dia de fastio que passou, e resolveu tomar um banho. Tomado o banho, voltou ao seu quarto. Jogou a toalha no sobre a cama e respirou fundo. Estendeu os braços para alongar os músculos. Sentou-se em sua cadeira, jogou os pés sobre a mesa. Olhando para seu armário viu que uma mancha umedecida contornava os cantos que fazia o encontro com a parede.
Não entendeu. Talvez fosse algum vazamento.
Todos os dias foram como se um adicional do que se passara com o rapaz se depositasse, paulatinamente, em sua personalidade. Os pensamentos funestos lhe percorriam o corpo como uma onda de desconforto, onde se repuxavam suas entranhas. Segurava-se como um andarilho em um vendaval tentando seguir o fio do caminho, sem causar impressão de que se segurava para andar corretamente. Uma nuvem inebriante tornava sua visão translúcida e o corpo trepidava vacilante como uma cavalgada sobre gelatina. Mas estava ali, marchando como um valente soldado, esvaindo seu esforço para não se abater pelo que não imaginava ser.
Dormiu um dia inteiro. Tempo suficiente para se recuperar. Não sabia mais o que fazer. O quê fazer? O que acontece comigo? Uma sensação raivosa de mim. Não consigo me esquecer de quando errei por pequenas coisas. O peso me parece muito maior do que o fato. O que estou fazendo aqui quando minha família se reúne para destroça um peru em sua mesa de jantar em dia de Natal?
Parte da consciência se misturava com a confusa densidade do seu interior. Um fluido lhe corria nas veias e envenenava a vontade involuntária de respirar. Algo lhe pressionava o esterno e o espaço lhe parecia faltar para que o coração batesse normalmente. Por vezes ao dia surgia uma taquicardia que o deixava exausto e exasperado por se esconder. Viveu assim durante um tempo.
No dia vinte e três de dezembro sua mãe ligou para saber se não iria passar o Natal em casa, como fazia todo os anos. Quem atendeu ao telefone foi um vigia que transferiu a ligação para a ala onde residia o estudante. Tocou várias vezes até que a ligação retornasse para a central telefônica. O vigia não entendeu, pois o viu à tarde caminhar pelo campus e não o havia visto passar pela saída, por onde todos que se retiravam do campus passavam. Disse à senhora que esperasse um pouco, pois pediria ao rapaz que para ela ligasse. Ou que esperasse um pouco e ligasse para a Universidade em vinte minutos para lhe dar alguma notícia.
Chegou ao seu quarto, era na ala H e no número 8, perto da saída para as quadras de tênis do campus. Tênis era um esporte que David apreciava. O guarda caminhava já passando pelo sexto, sétimo quarto, e finalmente bateu maciamente na porta com o número oito. Ninguém respondeu. Podia estar dormindo. Bateu novamente. Notou a sua luz acesa e refletida pelo buraco da fechadura. Bateu novamente. E nada. Envergou-se e olhou pelo buraco da fechadura, levantou-se rapidamente com os olhos arregalados como se tivesse visto algo horripilante. Afastou-se, correu e saltou de contra a porta, arrombando-a. Olhou o pobre rapaz, e gritou: Não! Era tempo passado o suficiente para que se fizesse qualquer coisa.
No ápice de sua agonia, quando vencidas todas as forças, exaurindo a sua resistência à loucura, frente à impossibilidade que acreditava de conseguir caminhar mais uma manhã sob o ônus daquela algoz sensação de escárnio interno, rasgou um dos lençóis fazendo uma corda. Amarrou-a numa barra cravada horizontalmente na sua parede para realizar exercícios físicos e tomou uns comprimidos.
Olhando para a mesa, o guarda viu que repousava sobre a superfície um vidro de calmantes, aberto. Correu, então, para a enfermaria para avisar aos médicos o ocorrido. O médicos viram que o rapaz havia tomado várias pílulas de sonífero, o que o fez dormir. Amarrando seu pescoço com a corda feita de lençol, preso a um suporte estante pregada na parede, ficou asfixiado. O rosto roxo. Na parede as marcas da sua luta enquanto perdia a consciência através do sono e de quem não sabia o que realmente queria fazer. Como se tivesse concluído que não seria sua ausência auto-determinada nesse mundo que o tornaria livre do seu drama. Porém, não havia mais o que fazer quando lhe impusera a fraqueza do sono.
Uma das teorias, dos médicos, era que não queria se matar de fato, mas sim aliviar a dor que sentia. Porém, quando se viu no que tinha feito, tentou lutar. Mas para si próprio traçara o destino do fim.
No quarto, bem na parede lateral do seu armário, estampadas manchas. O guarda as observou, enquanto os enfermeiros saíam com o corpo coberto sobre a maca. O vigia continuou a olhar. Estranhos desenhos se delineavam. Repuxados por tons escuros e mais claros, estampavam algo grotesco. Algo que talvez impregnasse o ambiente, o qual era o único companheiro do rapaz. Ao apagar das luzes e ao fechar as cortinas do quarto, impedindo que a luz entrasse, meio na penumbra, saltou a imagem. Um rosto, riscado, levemente fosforescente e abstratamente esboçado com a forma de olhos que pediam piedade e a boca de como se estivesse emitindo UM GRITO.

Figura: elaboração do autor em Paint Brush
FIM.
FIM.
